Apresentarei
um esboço resumido da teoria psicanalítica
enfocando a transferência e a contratransferência com os pacientes
pilotos. É mister entretanto que seja feita uma reflexão sobre o funcionamento psíquico e a relação de
importância que os aspectos expostos anteriormente trazem para o processo
psicanalítico. Vemos que Freud, teve que idealizar uma teoria que permitisse,
com um esquema referencial, também explicar tudo o que foi descobrindo. Eis aí
a sua proposta do chamado Aparelho Psíquico, que deve e pode ser estudado desde
os pontos de vista estrutural, dinâmico e econômico. Sempre lembrando que,
conjuntamente, estão as instâncias conscientes, preconscientes (mais acessíveis
a consciência) e as inconscientes, mais reprimidas e acessíveis no tratamento
psicanalítico, onde a interpretação de
sonhos é de fundamental importância
Desde o
início de um tratamento psicanalítico se verificam duas situações curiosas:
1) apesar de buscar ajuda, a pessoa com conflitos não apresenta imediatamente
tudo o que a preocupa, considera alguns fatos da sua vida como já superados ou
que não tem nada a ver com o que acontece agora e, apesar de que seu terapeuta
estar comprometido com o seu sigilo profissional e ter solicitado ao analisando
que fale de tudo o que aparecer no seu pensamento, desde o histórico infantil,
até as intimidades da vida sexual, e desde o que considere importante ou nada
significativo, restringe sua fala ao que considera que pode ou deve comunicar.
Eis aí o que já Freud tinha observado e que se denomina resistência ,
uma das grandes dificuldades deste tipo de tratamento;
2) o analista também aparece como um representante de muitas figuras do mundo
interno (aquele reprimido e inconsciente) e cada vez que o analisando se refere
a pessoas de seu passado ou do seu presente, pode estar também falando do
analista, que nesse momento, por diversos motivos, aparentemente se transforma
nessa pessoa, ou na sessão vira ameaçador ou objeto de amor, pai ou mãe, ou
qualquer outro ser significativo da sua vida com as características do que dela
foi registrado no inconsciente. Isto se denomina transferência,
metodologicamente utilizada sistematicamente na psicanálise. Uma vez iniciado
um tratamento psicanalítico, e superando as resistências mais freqüentes (será
que isto vai me ajudar?; é só falando que vai conseguir resolver meus
problemas?; não será que ele ou ela é muito jovem (ou muito velho) para me
entender?) começa o processo transferencial e, geralmente, o analisando vê seu
analista já como um pai severo (ou excessivamente indulgente ou omisso), ou
diretamente sua mãe com suas recomendações, proibições e protetora, severa ou
negligente. Vive esses momentos com intensa realidade, se irrita ou busca mais
carinho e proteção. Ou seja, se faz presente a regressão.
O
pensamento e a cultura de nossa época devem muito às contribuições psicanalíticas
que, até quando contestadas, obrigam a refletir sobre o ser humano como tal e
não somente como uma mera organização biológica. Fica ainda muito para
pesquisar, porém, temos que admitir que muitos afetos, simpatias, desprezos,
amor, companheirismo, lealdade, ética, são fenômenos psicodinâmicos estudados
profundamente pelos analistas e muitas vezes, por enquanto, não mensuráveis. O
método qualitativo da investigação científica não pode ser, ainda, deixado de
lado e proporciona muitas possibilidades teóricas e técnicas para continuar na
busca de uma humanidade ideal, provavelmente, como todo ideal, inatingível
Tudo
isto facilitado, estimulado pelo analista que usa a interpretação, ou seja
formula hipóteses do que pode estar acontecendo nesse momento com o analisando
em relação com ele/ela onde o histórico se apresenta como real, atual e nesse
instante. Geralmente vai procurar correlacionar estes momentos transferenciais
com o passado, com a história do analisando e especialmente com a sua infância
e a relação com os pais ou substitutos . Não poucas vezes as histórias infantis
de cada um são as realmente acontecidas e sim, por diversos motivos,
distorcidas ou fantasiadas. A continuação da psicanálise ajudará a esclarecer
este intrincado mundo de lembranças, fantasias, imaginação, situações
dramáticas reais (e até aparentemente esquecidas) e gradativamente permite uma
mais adequada avaliação da própria personalidade. O passado não se esquece,
fica no inconsciente. A psicanálise permite repensar e sentir, desde uma nova
perspectiva, nosso ser no mundo, chegamos a trabalhar nossos erros, a ter uma
compreensão mais real de nossa vida e de nossa conduta, aprendemos a rever o
mundo interno e em conseqüência também o externo, que pode então vir a ser ou
mais ameno e menos ameaçador ou, talvez, a reconhecer idealizações
desnecessárias, falsas ligações emocionais e até nossa submissão ou desprezo
por fatos, idéias ou pessoas, que para cada um de nós foi, na realidade, fonte
de conflitos que agora entendemos bem melhor. Esta interação
analista-analisando permite intensas e válidas mudanças psíquicas, e o processo
intrapsíquico de quem se analisa se denomina elaboração.O processo
psicanalítico é prolongado e penoso. Se revivem coisas aparentemente esquecidas
(reprimidas), o pai (ou mãe) tão severo (ou permissivo), aquele irmão que
parecia merecer todas as atenções da família e era invejado (ou rejeitado),
todos eles não eram bem assim, as vezes até que na realidade eram o contrário,
ou algumas circunstâncias tão importantes não o eram, ou até que eram piores
(ou melhores) do que tínhamos registrado como lembrança infantil altamente
perturbadora. Os "castigos" ou "reprimendas" dos pais eram
bem mais graves e causadoras de ódios que atrapalhavam toda a vida, ou eram
menos severas e talvez estruturantes de uma de nossas modalidades de vida
valorizadas e apreciadas. Muito muda, muito se esclarece, começamos sim a
conhecer-nos melhor e mais sinceramente. Estas modificações se chamam mutações
objetais do mundo interno , que é um dos grandes objetivos do tratamento
psicanalítico. Não devemos esquecer que o psicanalista, é um ser humano, com
seus próprios problemas, conflitos e caraterísticas de personalidade. Cada um
de nós tem sua própria história, seus conflitos infantis, e sua conduta (mais
ou menos também conflitiva )e sua forma particular de interpretação. Estudou ,
se formou, fez sua terapia analítica, supervisionou seus casos com colegas mais
experientes e está apto para a prática da psicanálise. Porém, não deixa de ser
uma pessoa, um ser humano vulnerável, sensível, vaidoso, ambicioso, invejoso,
que ama e odeia, que ainda que capacitado para sua prática terapêutica, também
sente, segundo as circunstâncias, carinho, afeto, rejeição, tédio, frente ao
que seu "paciente" fala, relata, apresenta, projeta nele/nela
(transferência), e se irrita, fica entediado, sente empatia e segundo o
material da temática tratada, se angustia e sofre. Está sim, treinado para tudo
isso, porém não poucas vezes tem que pensar e repensar numa interpretação,
talvez produto de seus próprios conflitos e personalidade, ou procurar
supervisar esse caso ou situação. Isto é contratransferência, importante
elemento do tratamento psicanalítico, que quando não bem conhecido ou ignorado,
pode levar a graves erros terapêuticos. Também quando bem interpretado, pode se
tornar um valioso instrumento terapêutico que ajuda a compreender melhor o que
está acontecendo numa situação ou em um tratamento. Devemos lembrar que assim
como existem transferências resistenciais, amor de transferência, idealização
do terapeuta e outras nuances, estas são próprias deste tipo de tratamento, e
também existem no psicanalista, que tem o recurso de se corrigir procurando
ajuda de seus colegas, supervisão e até uma outra análise a mais.
Selecionarei
uma situação onde pude detectar a evidência da tansferência da contratransferência no setting analítico.
O
paciente citado tem 38 anos, casado, dois filhos e é profissional liberal. A
sua queixa inicial que segundo ele originou a sua busca para o processo terapêutico foi ter medo de tornar-se como
seu irmão mais velho, extremamente autoritário ( mais adiante fui informada que o irmão é paciente
psiquiátrico e que ele próprio fez entrevistas com este profissional com medo
de enlouquecer). Afirma não ter boas relações com seus colegas assim como problemas com a esposa e filhos com os quais
briga por motivos insignificantes e ultimamente sente que não consegue
concentrar-se no trabalho, o que por
momentos o preocupa intensamente. Já leva 7 meses de análise, duas vezes por
semana.
Entra na
sala de consulta, estende a mão e cumprimenta-me como de costume, rapidamente deita no divã e diz: " Doutora ,
a senhora parece cansada , e não muito bem humorada" (projeção).
Tive um sonho em que eu me via velho, bem velho, e pensei que a morte estava
quase por aí".
Se trata de um brevíssimo exemplo para
ilustrar, resumidamente, alguns dos elementos do texto deste trabalho,
eminentemente simples com propósitos de evidenciar aspectos transferenciais e
contratransferenciais no processo terapêutico.
Se faz
aqui necessário destacar que a psicanálise é muito mais do que o aqui escrito.
Terapeuta:
É , ... e o senhor acha que sou eu quem está cansada e mal humorada...cada vez
que reaparecem seus sentimentos de frustração vê a todo o mundo desse jeito, me
incluindo nessa sua visão do mundo (interpretação da transferência).
Paciente: Bem , é verdade, (irritado) mas será que o senhor não
pode estar nem cansado nem mal-humorado? (transferência negativa e
resistência).
T.:
Está se perguntando se eu, tão velho como seu pai, poderei realmente ajudá-lo?
P.:
O senhor sabe que não é tão velho assim. (a transferência muda para um
aspecto mais positivo e se corrige o vínculo), e agora vem aí outra vez meu
pai, que era um verdadeiro carrasco, não consigo esquecer (regressão).
T.:
Agora o carrasco sou eu (assume o papel paterno infantil) que o incomoda
com o que falo.
P.:
E que o senhor me leva a lembrar coisas que já tinha esquecido (estão no
inconsciente) e que quero manter esquecidas (repressão) ainda que na
verdade vejo alguns de meus colegas como inimigos (deslocamento), apesar
de que começo a ver que não é bem assim (elaboração e mutação objetal).
T.:
Parece que virei um pai menos severo e que pode ajudar (o analista está
satisfeito com a evolução da sessão, e interpreta usando sua
contratransferência positiva).
P.:
Me pergunto se meu pai era realmente tão ruim (nova mutação objetal interna
, ainda dentro da regressão). Gostaria sim de mudar meu comportamento com a
minha família (procura usar outros mecanismos de defesa , menos conflitivos
e mais livres da pressão do seu Superego).
Penso
que nesta brevíssima apresentação da psicanálise - onde muitos assuntos foram
propositadamente deixados de lado - tenha podido dar uma idéia , excessivamente
resumida, dos aspectos solicitados para estudo com o paciente piloto. Entretanto,
cabe fazer constar que a sociedade toda pode, em parte, ser entendida
psicanalíticamente. O aspecto agressivo e a violência formam parte do ser humano
que, às vezes, superegoicamente nega esta realidade e gosta de se sentir bom,
generoso e cheio de amor para com o mundo todo. A realidade do cotidiano nos
demonstra a falsidade desta pretensão. A literatura toda pode ser melhor
compreendida, assim como a história, através das idéias psicanalíticas. Não é a
toa que o autor mais citado por Freud é Shakespeare, e que muitos escritores
contemporâneos encontrem inspiração nas idéias freudianas.
Enfim,
com este breve recorte tentou-se evidenciar com um paciente piloto a ocorrência
da transferência e a contratransferência . É evidente que ocorreram outras
situações onde pude evidenciar tais
aspectos mas para fim didático elegi a situação citada pelo fato dele manter uma constância na frequência das sessões,
além do tempo que se encntra em processo terapêutico.
Bibliografia:
1.CARVALHO,
Uyratan. 2 ed. Rio de janeiro, SPOB. 2001
2. Foi
utilizado o módulo da disciplina além
das observações feitas pelo analista-supervisor.
Marinalva batista dos santos – Psicanalista,
Pedagoga , Psicopedagoga e
Psicomotricista clínica e Escolar