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A transferênica e a contratransferência no espaço terapêutico

por Marinalva Batista Dos Santos

Apresentarei um esboço resumido da teoria psicanalítica  enfocando a transferência e a contratransferência com os pacientes pilotos. É mister entretanto que seja feita uma reflexão sobre o  funcionamento psíquico e a relação de importância que os aspectos expostos anteriormente trazem para o processo psicanalítico. Vemos que Freud, teve que idealizar uma teoria que permitisse, com um esquema referencial, também explicar tudo o que foi descobrindo. Eis aí a sua proposta do chamado Aparelho Psíquico, que deve e pode ser estudado desde os pontos de vista estrutural, dinâmico e econômico. Sempre lembrando que, conjuntamente, estão as instâncias conscientes, preconscientes (mais acessíveis a consciência) e as inconscientes, mais reprimidas e acessíveis no tratamento psicanalítico, onde a interpretação  de sonhos é de fundamental importância

Desde o início de um tratamento psicanalítico se verificam duas situações curiosas:


1) apesar de buscar ajuda, a pessoa com conflitos não apresenta imediatamente tudo o que a preocupa, considera alguns fatos da sua vida como já superados ou que não tem nada a ver com o que acontece agora e, apesar de que seu terapeuta estar comprometido com o seu sigilo profissional e ter solicitado ao analisando que fale de tudo o que aparecer no seu pensamento, desde o histórico infantil, até as intimidades da vida sexual, e desde o que considere importante ou nada significativo, restringe sua fala ao que considera que pode ou deve comunicar. Eis aí o que já Freud tinha observado e que se denomina resistência , uma das grandes dificuldades deste tipo de tratamento;


2) o analista também aparece como um representante de muitas figuras do mundo interno (aquele reprimido e inconsciente) e cada vez que o analisando se refere a pessoas de seu passado ou do seu presente, pode estar também falando do analista, que nesse momento, por diversos motivos, aparentemente se transforma nessa pessoa, ou na sessão vira ameaçador ou objeto de amor, pai ou mãe, ou qualquer outro ser significativo da sua vida com as características do que dela foi registrado no inconsciente. Isto se denomina transferência, metodologicamente utilizada sistematicamente na psicanálise. Uma vez iniciado um tratamento psicanalítico, e superando as resistências mais freqüentes (será que isto vai me ajudar?; é só falando que vai conseguir resolver meus problemas?; não será que ele ou ela é muito jovem (ou muito velho) para me entender?) começa o processo transferencial e, geralmente, o analisando vê seu analista já como um pai severo (ou excessivamente indulgente ou omisso), ou diretamente sua mãe com suas recomendações, proibições e protetora, severa ou negligente. Vive esses momentos com intensa realidade, se irrita ou busca mais carinho e proteção. Ou seja, se faz presente a regressão.

O pensamento e a cultura de nossa época devem muito às contribuições psicanalíticas que, até quando contestadas, obrigam a refletir sobre o ser humano como tal e não somente como uma mera organização biológica. Fica ainda muito para pesquisar, porém, temos que admitir que muitos afetos, simpatias, desprezos, amor, companheirismo, lealdade, ética, são fenômenos psicodinâmicos estudados profundamente pelos analistas e muitas vezes, por enquanto, não mensuráveis. O método qualitativo da investigação científica não pode ser, ainda, deixado de lado e proporciona muitas possibilidades teóricas e técnicas para continuar na busca de uma humanidade ideal, provavelmente, como todo ideal, inatingível

Tudo isto facilitado, estimulado pelo analista que usa a interpretação, ou seja formula hipóteses do que pode estar acontecendo nesse momento com o analisando em relação com ele/ela onde o histórico se apresenta como real, atual e nesse instante. Geralmente vai procurar correlacionar estes momentos transferenciais com o passado, com a história do analisando e especialmente com a sua infância e a relação com os pais ou substitutos . Não poucas vezes as histórias infantis de cada um são as realmente acontecidas e sim, por diversos motivos, distorcidas ou fantasiadas. A continuação da psicanálise ajudará a esclarecer este intrincado mundo de lembranças, fantasias, imaginação, situações dramáticas reais (e até aparentemente esquecidas) e gradativamente permite uma mais adequada avaliação da própria personalidade. O passado não se esquece, fica no inconsciente. A psicanálise permite repensar e sentir, desde uma nova perspectiva, nosso ser no mundo, chegamos a trabalhar nossos erros, a ter uma compreensão mais real de nossa vida e de nossa conduta, aprendemos a rever o mundo interno e em conseqüência também o externo, que pode então vir a ser ou mais ameno e menos ameaçador ou, talvez, a reconhecer idealizações desnecessárias, falsas ligações emocionais e até nossa submissão ou desprezo por fatos, idéias ou pessoas, que para cada um de nós foi, na realidade, fonte de conflitos que agora entendemos bem melhor. Esta interação analista-analisando permite intensas e válidas mudanças psíquicas, e o processo intrapsíquico de quem se analisa se denomina elaboração.O processo psicanalítico é prolongado e penoso. Se revivem coisas aparentemente esquecidas (reprimidas), o pai (ou mãe) tão severo (ou permissivo), aquele irmão que parecia merecer todas as atenções da família e era invejado (ou rejeitado), todos eles não eram bem assim, as vezes até que na realidade eram o contrário, ou algumas circunstâncias tão importantes não o eram, ou até que eram piores (ou melhores) do que tínhamos registrado como lembrança infantil altamente perturbadora. Os "castigos" ou "reprimendas" dos pais eram bem mais graves e causadoras de ódios que atrapalhavam toda a vida, ou eram menos severas e talvez estruturantes de uma de nossas modalidades de vida valorizadas e apreciadas. Muito muda, muito se esclarece, começamos sim a conhecer-nos melhor e mais sinceramente. Estas modificações se chamam mutações objetais do mundo interno , que é um dos grandes objetivos do tratamento psicanalítico. Não devemos esquecer que o psicanalista, é um ser humano, com seus próprios problemas, conflitos e caraterísticas de personalidade. Cada um de nós tem sua própria história, seus conflitos infantis, e sua conduta (mais ou menos também conflitiva )e sua forma particular de interpretação. Estudou , se formou, fez sua terapia analítica, supervisionou seus casos com colegas mais experientes e está apto para a prática da psicanálise. Porém, não deixa de ser uma pessoa, um ser humano vulnerável, sensível, vaidoso, ambicioso, invejoso, que ama e odeia, que ainda que capacitado para sua prática terapêutica, também sente, segundo as circunstâncias, carinho, afeto, rejeição, tédio, frente ao que seu "paciente" fala, relata, apresenta, projeta nele/nela (transferência), e se irrita, fica entediado, sente empatia e segundo o material da temática tratada, se angustia e sofre. Está sim, treinado para tudo isso, porém não poucas vezes tem que pensar e repensar numa interpretação, talvez produto de seus próprios conflitos e personalidade, ou procurar supervisar esse caso ou situação. Isto é contratransferência, importante elemento do tratamento psicanalítico, que quando não bem conhecido ou ignorado, pode levar a graves erros terapêuticos. Também quando bem interpretado, pode se tornar um valioso instrumento terapêutico que ajuda a compreender melhor o que está acontecendo numa situação ou em um tratamento. Devemos lembrar que assim como existem transferências resistenciais, amor de transferência, idealização do terapeuta e outras nuances, estas são próprias deste tipo de tratamento, e também existem no psicanalista, que tem o recurso de se corrigir procurando ajuda de seus colegas, supervisão e até uma outra análise a mais.

Selecionarei uma situação onde pude detectar a evidência da tansferência  da contratransferência no setting analítico.

O paciente citado tem 38 anos, casado, dois filhos e é profissional liberal. A sua queixa inicial que segundo ele originou a sua  busca para o processo terapêutico foi ter medo de tornar-se como seu irmão mais velho, extremamente autoritário ( mais adiante  fui informada que o irmão é paciente psiquiátrico e que ele próprio fez entrevistas com este profissional com medo de enlouquecer). Afirma não ter boas relações com seus colegas assim como  problemas com a esposa e filhos com os quais briga por motivos insignificantes e ultimamente sente que não consegue concentrar-se no trabalho,  o que por momentos o preocupa intensamente. Já leva 7 meses de análise, duas vezes por semana.

Entra na sala de consulta, estende a mão e cumprimenta-me  como de costume, rapidamente deita no divã e diz: " Doutora , a senhora parece cansada , e não muito bem humorada" (projeção). Tive um sonho em que eu me via velho, bem velho, e pensei que a morte estava quase por aí".

 Se trata de um brevíssimo exemplo para ilustrar, resumidamente, alguns dos elementos do texto deste trabalho, eminentemente simples com propósitos de evidenciar aspectos transferenciais e contratransferenciais no processo terapêutico.

Se faz aqui necessário destacar que a psicanálise é muito mais do que o aqui escrito.

Terapeuta: É , ... e o senhor acha que sou eu quem está cansada e mal humorada...cada vez que reaparecem seus sentimentos de frustração vê a todo o mundo desse jeito, me incluindo nessa sua visão do mundo (interpretação da transferência).


Paciente: Bem , é verdade, (irritado) mas será que o senhor não pode estar nem cansado nem mal-humorado? (transferência negativa e resistência).

T.: Está se perguntando se eu, tão velho como seu pai, poderei realmente ajudá-lo?

P.: O senhor sabe que não é tão velho assim. (a transferência muda para um aspecto mais positivo e se corrige o vínculo), e agora vem aí outra vez meu pai, que era um verdadeiro carrasco, não consigo esquecer (regressão).

T.: Agora o carrasco sou eu (assume o papel paterno infantil) que o incomoda com o que falo.

P.: E que o senhor me leva a lembrar coisas que já tinha esquecido (estão no inconsciente) e que quero manter esquecidas (repressão) ainda que na verdade vejo alguns de meus colegas como inimigos (deslocamento), apesar de que começo a ver que não é bem assim (elaboração e mutação objetal).

T.: Parece que virei um pai menos severo e que pode ajudar (o analista está satisfeito com a evolução da sessão, e interpreta usando sua contratransferência positiva).

P.: Me pergunto se meu pai era realmente tão ruim (nova mutação objetal interna , ainda dentro da regressão). Gostaria sim de mudar meu comportamento com a minha família (procura usar outros mecanismos de defesa , menos conflitivos e mais livres da pressão do seu Superego).

Penso que nesta brevíssima apresentação da psicanálise - onde muitos assuntos foram propositadamente deixados de lado - tenha podido dar uma idéia , excessivamente resumida, dos aspectos solicitados para estudo com o paciente piloto. Entretanto, cabe fazer constar que a sociedade toda pode, em parte, ser entendida psicanalíticamente. O aspecto agressivo e a violência formam parte do ser humano que, às vezes, superegoicamente nega esta realidade e gosta de se sentir bom, generoso e cheio de amor para com o mundo todo. A realidade do cotidiano nos demonstra a falsidade desta pretensão. A literatura toda pode ser melhor compreendida, assim como a história, através das idéias psicanalíticas. Não é a toa que o autor mais citado por Freud é Shakespeare, e que muitos escritores contemporâneos encontrem inspiração nas idéias freudianas.

Enfim, com este breve recorte tentou-se evidenciar com um paciente piloto a ocorrência da transferência e a contratransferência . É evidente que ocorreram outras situações onde  pude evidenciar tais aspectos mas para fim didático elegi a situação citada pelo fato dele manter  uma constância na  frequência  das sessões, além do tempo que se encntra em processo terapêutico.

Bibliografia:

1.CARVALHO, Uyratan. 2 ed. Rio de janeiro, SPOB. 2001

2. Foi utilizado o módulo da  disciplina além das observações feitas pelo analista-supervisor.

Marinalva batista dos santos – Psicanalista, Pedagoga , Psicopedagoga  e Psicomotricista clínica e Escolar







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Autor: Marinalva Batista Dos Santos
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